Mostrando postagens com marcador Entrevistas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Entrevistas. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Há que se abrir a cabeça...

Entrevista originalmente publicada no Portal Porvir:

Depois de já ter revolucionado os moldes tradicionais de ensino na Escola da Ponte, o professor português José Pacheco, hoje um estudioso da realidade brasileira, aposta na mudança de mentalidade dos professores e no apoio dos governos para haver inovação em educação. Segundo o educador, é preciso que as iniciativas isoladas que ele tem visto pelo país sejam registradas, avaliadas e incentivadas para não serem perdidas. Mais que isso: os professores devem se dispor a mudar para adotar uma postura mais descentralizada, aberta à reflexão, ao diálogo e à diversidade.

Pacheco se tornou mundialmente conhecido por transformar uma escola pública portuguesa, a Ponte, com uma metodologia ousada: ele acabou com turmas, salas de aula, disciplinas e passou a ensinar conforme a motivação dos alunos. Lá, são os próprios estudantes que se organizam em grupos heterogêneos para estudar os assuntos que lhes interessam, são autônomos para pesquisar, apresentar os resultados para os colegas e, quando se sentem prontos, avisam que podem ser avaliados. O educador já está aposentado, mas sua proposta pedagógica continua sendo aplicada na Ponte e é replicada em vários países, inclusive no Brasil.

Como o senhor definiria inovação em educação?

Os arquivos das universidades estão repletos de teses sobre inovação. Sendo um termo de vasto espectro semântico, eu poderia escolher uma definição qualquer e escrever aqui, mas não farei. Prefiro dizer que, no campo teórico da educação, já tudo foi inventado e que as teses são meras reproduções de teorias… Na prática, aquilo que tem sido considerado inovação não tem sido avaliado e, quase sempre, tem consistido apenas em pequenas mudanças num modelo educacional hegemônico e obsoleto. Esse modelo, dito “tradicional”, aquele em que é suposto ser possível transmitir conhecimento faliu muito tempo atrás.

Nós, brasileiros, somos um povo aberto para inovação?

Sem dúvida que a mistura genética deu origem a um povo criativo. Acompanho algumas práticas embrionárias que provam a capacidade inventiva dos professores brasileiros. São iniciativas que partem de desejos e necessidades sentidas pelos atores locais. Essas práticas (talvez inovadoras) requerem descentralização, questionamento do modelo de relação hierárquica, negociação e contrato, respeito pela diversidade. Tais projetos poderiam constituir-se em oportunidade de mudança, mas o poder criativo não encontra acolhimento junto daqueles a quem compete gerir o sistema. Urge inovar, mas como pode acontecer inovação, se quem decide não tem consciência dessa necessidade?

O que de mais inovador o senhor tem visto pelas suas viagens pelo Brasil?

Tenho visto o trabalho discreto de muitos professores. Um trabalho que talvez mereça ser considerado inovador, mas que, por não ser apoiado pelo poder público, nem avaliado, se perde, quando os professores desistem de querer mudar as escolas, quando desistem de fazer das crianças seres mais sábios e pessoas mais felizes.

Existe mais abertura hoje para projetos que desconstroem a escola tradicional, como a Escola da Ponte ou a Educação Ativa?

Existe abertura por parte de educadores atentos à tragédia educacional brasileira. Há dados que mostram que há alunos que chegam ao ensino médio analfabetos ou incapazes de fazer uma interpretação de texto.

As escolas se converteram ao mundo digital, mas mantêm e reforçam práticas de ensino obsoletas, o improviso e o imediatismo das “novas” práticas faz prosperar o insucesso. Urge instituir novas e autonômicas formas de organização das escolas, mas também recuperar práticas antigas, sem a tentação de clonar a escola da Ponte ou adotar modismos.

Há muitos educadores com um estatuto social degradado, mal remunerados, mas que não desistem de desconstruir o modelo tradicional, de tentar melhorar, melhorando a escola. Eles sabem que o Brasil progredirá através da educação. Mas não aquela educação de que é feita a retórica de político…

Onde estão as principais barreiras para inovar? Nas escolas, entre professores, governantes, pais ou alunos?

A mudança em educação é um processo complexo e moroso: para grandes metas, pequenos passos. Urge buscar uma escola do conhecimento e abandonar um ensino meramente transmissivo, fomentar a organização do acesso à informação e a aprendizagem do uso do conhecimento.

A mudança das instituições passa pela transformação das pessoas que as mantêm. Estabeleça-se uma práxis pautada numa ética da responsabilidade e numa relação dialógica. Que se recuse ideias feitas e se escape à síndrome do pensamento único.

A formação dos professores é deficiente. As escolas são geridas numa racionalidade administrativa e burocrática. Mas o principal obstáculo é o professor, quando assume que o ato de educar é um ato solitário, quando recusa reelaborar a sua cultura pessoal e profissional, no exercício da convivencialidade.

domingo, 29 de maio de 2011

Entrevista com o Professor Rafael Sanzio

No dia do geógrafo, comemorado hoje, 29 de maio, apresentamos um pouco dos olhares e do trabalho de Rafael Sanzio, um dos representantes dessa profissão que tanto nos inspira. No vídeo abaixo ele passa por temas como cartografia, territórios quilombolas e geografia do futuro.  

 
Dica de @cantacantos  

Rafael Sanzio Araújo dos Anjos é professor Associado do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília (UnB) e Diretor do Centro de Cartografia Aplicada e Informação Geográfica (CIGA) desta mesma Universidade.



Abraços!

segunda-feira, 23 de maio de 2011

"A Geografia faz parte da nossa vida"

A geógrafa Zélia Guedes atua no Instituto Federal da Paraíba e faz um interessante trabalho que une música ao ensino de Geografia. Para conhecer um pouco das estratégias utilizadas por ela clique aqui.

Em tempo: a frase que fornece título a essa postagem faz parte da fala de Zélia Guedes. A geógrafa busca evidenciar que a Geografia se manifesta em nossas vidas de diversas formas, seja no caminho de casa para escola, no ambiente de trabalho, e em diversos outros contextos.


sexta-feira, 13 de maio de 2011

"O dia de hoje é da libertação do trabalho escravo, e não do negro"

“[...] Vamos pensar de um ponto de vista real. Estamos falando de uma população que sofreu por 350 anos em um processo escravagista. Uma população perseguida no que se refere à sua cultura, aos seus valores. E quando o IBGE divulga um dado do Censo de 2010 dizendo que essa população aumentou, eu credito isso a uma consciência negra cada vez mais potencial.”

O trecho acima faz parte da entrevista concedida por Marcos Cardoso, mestre em História pela UFMG e um dos mais antigos membros do Movimento Negro Unificado em Belo Horizonte. Entre riquíssimas ponderações, o professor destaca que a data de hoje, 13 de maio, é o dia da libertação do trabalho escravo, mas não do negro.

As colocações de Cardoso se notabilizam por não tratar a população de forma abstrata, isto é, ela não é reduzida à questão numérica. Afinal, Marx assinala que “a população é uma abstração, se desprezarmos, por exemplo, as classes que a compõem. Por seu lado, estas classes são uma palavra vazia de sentido se ignorarmos os elementos em que repousam, por exemplo: o trabalho assalariado, o capital, etc. Estes supõem a troca, a divisão do trabalho, os preços, etc.”. Exemplo da necessidade desse olhar mais profundo pode ser constatado na reportagem "Ecos da escravidão" na qual se demonstra que a taxa de negros que morrem no Brasil é muito superior a dos brancos. Mas a reportagem não para nos números,  na verdade, há uma preocupação em se compreender as razões desse quadro. Nela é trazida a fala de sociólogo argentino Julio Jacobo Waiselfisz, estudioso da violência no Brasil há 15 anos e o autor do Mapa da Violência, que levanta duas hipóteses para explicar este quadro:
A primeira delas, compartilhada por diversos especialistas, é que acontece  com a segurança o mesmo ocorrido com a educação e a saúde: a privatização. Assim como quem possui condições financeiras vai a escolas particulares, tem plano de saúde e por isso acesso a melhores hospitais, também se protege melhor do crime quem tem mais dinheiro. As guaritas, grades, carros blindados, os filhos com celular e os seguranças privados (em geral policiais fazendo bicos) protegem da violência as classes sociais mais altas e mais brancas. Se essa é uma causa, digamos, privada, a outra razão é de responsabilidade direta do poder público. “Tudo indica que as políticas que estamos desenvolvendo desde 2002 no setor de segurança, em muitos estados, se dirigem fundamentalmente aos setores mais abastados da sociedade”, critica o sociólogo. “Se a maioria dos negros é pobre, é óbvio que não serão beneficiados.” ( Reportagem de Cynara Menezes)
A socióloga Luiza Bairros, ministra da Igualdade Racial, menciona ainda que o problema já pode ser identificado na própria ação dos policiais que, segundo ela, são treinados para enxergar o negro."A imagem utilizada para compor o criminoso é calcada na pessoa negra, mais especificamente no homem negro." Nesse sentido ela alerta que o racismo institucional existe e influencia boa parte do comportamento da corporação.

Para além dos números é, portanto, imprescindível dar visibilidade aos conflitos e especificidades inerentes à população. É fundamental que a Geografia Escolar e demais disciplinas trabalhem seus respectivos conteúdos a partir de olhares como o de Cardoso.

Para acessar a entrevista  publicada no CEDEFES clique aqui
A reportagem "Ecos da escravidão" pode ser acessada por aqui.

Referências:

Dona Isabel libertou os escravos há 123 anos, mas o negro ainda não tem pleno acesso a sua cultura. CEDEFES. Disponível em: <http://www.cedefes.org.br/?p=afro_detalhe&id_afro=5636> Acesso em 13 maio 2011.

Ecos da escravidão. Carta Capital. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/politica/ecos-da-escravidao-2>. Acesso em: 13 maio 2011.

MARX, Karl. Para a crítica da economia política. São Paulo: Abril Cultural, 1978 (Col. Os Pensadores), p. 116

segunda-feira, 28 de março de 2011

Com a palavra, Roberta Sumar, a Geoprofessora

Temos a honra de apresentar a entrevista que realizamos com a professora Roberta Sumar, a idealizadora do Geoprofessora, um blog sobre práticas vinculadas ao ensino de geografia.  Sobre o blog, além dos expressivos números que indicam mais de 400 mil acessos, se evidenciam a qualidade e a seriedade. Sobre a professora, para além da competência e amor pelo que faz, sua atenção é digna de realce, afinal, ela nos atendeu pronta e gentilmente, via email. Acompanhe a entrevista abaixo:  

1) Conte-nos primeiramente, por favor, um pouco de sua trajetória na Geografia. 

Decidi fazer Geografia depois de me formar em técnica em edificações, fazer estágio no Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis – IPUF, no setor de Patrimônio Histórico, e conhecer os geógrafos que trabalham na parte de planejamento urbano. Formei-me em 2006 em licenciatura pela UDESC, Universidade do Estado de Santa Catarina, tenho Especialização em Gestão Educacional e Metodologia do Ensino Interdisciplinar pela UNIESC.  Leciono desde 2006, como professora na rede pública e privada da Grande Florianópolis em Santa Catarina. Os alunos são do ensino fundamental II e médio.

2) Como surgiu a ideia de criação do blog? Desde quando ele está no ar? Como é o funcionamento?

Tenho o blog desde 2007, mas a partir de 2008 que ele está “ativo”. Utilizo-o voltado principalmente à prática de ensino em Geografia, tanto para alunos, quanto para professores, e assuntos relacionados ao espaço geográfico. Gosto de divulgar práticas de ensino que realizei, entre outras informações geográficas. Além de complementar o estudo nas turmas em que estou lecionando.

3) O que mudou depois da criação? Quais são os principais efeitos e limitações que você observa?

Em relação aos alunos percebo que não estão acostumados a usarem internet ou páginas de relacionamento como meio de pesquisa e momento de estudo. Uma das propostas do blog é que eles tenham esse costume em casa, ao conferirem seu Orkut ou email, por exemplo, olhem as atualizações do meu blog. Outro efeito positivo é o fascínio dos alunos em ver os trabalhos feitos em sala publicados na internet, poder conferir o que as outras turmas estão estudando e fazendo, escrever no blog através de comentários as dúvidas ou outros pedidos. Limitações encontrei no arquivamento e publicação de arquivos, mas faço isso através do 4shared.

4) O que seus alunos acham do blog? Como se dá a interatividade?

Os alunos no geral gostam, claro que nem sempre todos têm acesso e tempo para acompanhar, diante da realidade deles (comparando os alunos regulares, nas escolas públicas nem todos tem computador e/ou internet, os da EJA que trabalham o dia inteiro e estudam a noite) há bastantes contrastes. Há alguns alunos mais espertinhos com as novas tecnologias que até criticam, comentam que o layout está desatualizado ou sugerem outras novas possibilidades com os blogs, mas aos poucos vou aprendendo.

5) Em sua opinião quais são as contribuições que a internet pode trazer para a educação? Quais são os desafios e/ou pontos negativos? Há alguma especificidade no que diz respeito à ciência geográfica?

Sobre a internet voltada à educação, sou a favor do livre pensamento e opinião, a internet tem espaço para as pessoas se expressarem e, por afinidade, formarem redes [opção de ‘seguidores’ nos blogs] de blogueiros. Em relação à pesquisa na internet destaco que as pessoas devem estar atentas às páginas e referências que estão utilizando, não se esquecendo de credibilizar os autores. Algo negativo que percebo é que nessas redes de blogueiros, outros professores que também possuem blogs, por falta de conteúdo ou criatividade, não sei, copiam ou divulgam material da minha página sem os devidos créditos. Isso me chateia, e sempre tento chamá-los atenção, ou pelo menos a devida consideração. Em relação aos alunos eles têm o fascínio pelo novo e o moderno, acho que a educação tem que utilizar dessas ferramentas a seu favor. Também percebo de negativo os alunos dispersos e ingênuos nas suas pesquisas na internet.

6) Para você qual é o porquê de se ensinar a Geografia?

A geografia tem a missão de fazer o aluno compreender o seu mundo e o seu papel neste, tornando-o um cidadão critico e participativo. Respondendo a questão anterior, diante das mudanças com os avanços tecnológicos, a expansão capitalista e o mundo globalizado em que vivemos, faz-se necessário que a geografia esteja inserida neste mundo ‘conectado’, analisando os reflexos disto na sociedade e na natureza, ou melhor, no próprio espaço geográfico.

7) De que forma você busca trabalhar as categorias geográficas em suas aulas?

Geralmente no início do ano letivo trabalho de forma mais conceitual as categorias, e ao longo do ano sempre vou pontuando a forma que esses conceitos aparecem nos textos.

8) Com base na sua experiência, quais sãos os principais desafios e dificuldades que um professor enfrenta?

Recentemente estava pensando sobre a realidade dos professores, e cheguei a uma possibilidade: se no ensino superior fosse cobrado como pré-requisito para ser professor a licenciatura e uma experiência docente no ensino regular, acho que ajudaria na formação profissional desses alunos, independentes se serão docentes ou não. Com certeza esses professores de ensino superior teriam uma visão diferente de mundo e que qualquer profissional precisa da escola e da qualidade de ensino (utópico né!?,  rsrs).

9) O que você tem a dizer a outros professores que planejam criar um blog?

Sempre incentivo aos meus colegas a fazerem blogs, hoje em dia se preciso algum material meu é mais fácil encontrá-lo no meu blog do que no meu computador. O blog serve de estímulo e organização do professor e até eleva a qualidade de suas propostas pedagógicas. Sem falar que é um ótimo treino para a escrita e consequente publicação. E também trabalha a auto-estima do professor, reconhecimento por parte de outros colegas, do mundo e de outras pessoas elogiando o seu trabalho, isso é muito bom.

10) Poderia deixar um recado para os bolsistas do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) que se preparam para, em breve, exercer a docência?  

O que poderia dizer... que aproveitem ao máximo a vida de bolsista, tenho muita saudade desse período. Aproveitem ao máximo esse período para experimentar estratégias de aulas novas, diferentes e ousadas, pois no cotidiano escolar não sobra muito tempo para planejamento e práticas diferenciadas. Para o exercício da docência além de técnicas e ferramentas, é fundamental o conteúdo, ensinar conceitos e depois aplicá-los na realidade dos alunos, a geografia nos permite e exige isso. E acho também que nossos alunos cada vez mais precisam de bons exemplos, aulas bem preparas, afinal, acabou ficando para o professor também ensinar valores e boas condutas!

Professora Roberta Sumar, muito obrigado pela atenção e pelos exemplos!

Acesse o blog dela por aqui.
Boa Navegação!

sábado, 19 de março de 2011

Como desconstruir estereótipos?

Segundo Ronaldo Mathias, professor de Cultura Afro-Ameríndia do Centro Universitário Belas Artes, a informação é um dos caminhos para a superação desse desafio. Que tal então nos informarmos através da entrevista que o professor concedeu ao Estadao.edu? Clique aqui e boa leitura!

Fonte: Estadao.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Redes sociais como ferramentas de ensino

Com experiência de quase 20 anos em projetos que utilizam tecnologia na educação, o colombiano Diego Leal afirma que  para professores e escolas fazerem um uso proveitoso da tecnologia é necessário ter em mente que o conhecimento não se centra em uma única pessoa. No entanto, Leal rechaça a idéia de que as novas tecnologias coloquem em risco o papel do docente. Segundo ele, na verdade, é preciso que o professor seja criativo e agregue valor  às práticas tecnológicas dos educandos. Nesse sentido, é interessante notar que o colombiano utiliza frequentemente a expressão “ferramentas” para se referir aos novos recursos tecnológicos existentes. Para ler a entrevista completa com Diego Leal, publicada pela versão online do jornal O Estado de São Paulo, clique aqui. Boa leitura!

Fonte: Estadao.