sexta-feira, 13 de maio de 2011

"O dia de hoje é da libertação do trabalho escravo, e não do negro"

“[...] Vamos pensar de um ponto de vista real. Estamos falando de uma população que sofreu por 350 anos em um processo escravagista. Uma população perseguida no que se refere à sua cultura, aos seus valores. E quando o IBGE divulga um dado do Censo de 2010 dizendo que essa população aumentou, eu credito isso a uma consciência negra cada vez mais potencial.”

O trecho acima faz parte da entrevista concedida por Marcos Cardoso, mestre em História pela UFMG e um dos mais antigos membros do Movimento Negro Unificado em Belo Horizonte. Entre riquíssimas ponderações, o professor destaca que a data de hoje, 13 de maio, é o dia da libertação do trabalho escravo, mas não do negro.

As colocações de Cardoso se notabilizam por não tratar a população de forma abstrata, isto é, ela não é reduzida à questão numérica. Afinal, Marx assinala que “a população é uma abstração, se desprezarmos, por exemplo, as classes que a compõem. Por seu lado, estas classes são uma palavra vazia de sentido se ignorarmos os elementos em que repousam, por exemplo: o trabalho assalariado, o capital, etc. Estes supõem a troca, a divisão do trabalho, os preços, etc.”. Exemplo da necessidade desse olhar mais profundo pode ser constatado na reportagem "Ecos da escravidão" na qual se demonstra que a taxa de negros que morrem no Brasil é muito superior a dos brancos. Mas a reportagem não para nos números,  na verdade, há uma preocupação em se compreender as razões desse quadro. Nela é trazida a fala de sociólogo argentino Julio Jacobo Waiselfisz, estudioso da violência no Brasil há 15 anos e o autor do Mapa da Violência, que levanta duas hipóteses para explicar este quadro:
A primeira delas, compartilhada por diversos especialistas, é que acontece  com a segurança o mesmo ocorrido com a educação e a saúde: a privatização. Assim como quem possui condições financeiras vai a escolas particulares, tem plano de saúde e por isso acesso a melhores hospitais, também se protege melhor do crime quem tem mais dinheiro. As guaritas, grades, carros blindados, os filhos com celular e os seguranças privados (em geral policiais fazendo bicos) protegem da violência as classes sociais mais altas e mais brancas. Se essa é uma causa, digamos, privada, a outra razão é de responsabilidade direta do poder público. “Tudo indica que as políticas que estamos desenvolvendo desde 2002 no setor de segurança, em muitos estados, se dirigem fundamentalmente aos setores mais abastados da sociedade”, critica o sociólogo. “Se a maioria dos negros é pobre, é óbvio que não serão beneficiados.” ( Reportagem de Cynara Menezes)
A socióloga Luiza Bairros, ministra da Igualdade Racial, menciona ainda que o problema já pode ser identificado na própria ação dos policiais que, segundo ela, são treinados para enxergar o negro."A imagem utilizada para compor o criminoso é calcada na pessoa negra, mais especificamente no homem negro." Nesse sentido ela alerta que o racismo institucional existe e influencia boa parte do comportamento da corporação.

Para além dos números é, portanto, imprescindível dar visibilidade aos conflitos e especificidades inerentes à população. É fundamental que a Geografia Escolar e demais disciplinas trabalhem seus respectivos conteúdos a partir de olhares como o de Cardoso.

Para acessar a entrevista  publicada no CEDEFES clique aqui
A reportagem "Ecos da escravidão" pode ser acessada por aqui.

Referências:

Dona Isabel libertou os escravos há 123 anos, mas o negro ainda não tem pleno acesso a sua cultura. CEDEFES. Disponível em: <http://www.cedefes.org.br/?p=afro_detalhe&id_afro=5636> Acesso em 13 maio 2011.

Ecos da escravidão. Carta Capital. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/politica/ecos-da-escravidao-2>. Acesso em: 13 maio 2011.

MARX, Karl. Para a crítica da economia política. São Paulo: Abril Cultural, 1978 (Col. Os Pensadores), p. 116

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